
Há dias...
Dias assim deviam existir sempre...
Dias assim que não deviam sequer mostrar-nos a luz do sol...
Dias vazios, cheios, ocos, leves, suaves, duros, despidos, vestidos de cores, pintados com rabiscos...simplesmente são dias...
Num dia sinto-me eu...não sei se gosto, passo o dia a olhar-me por dentro, sempre com a infinita discrição que tanto me caracteriza e que eu cada vez menos a suporto. Olho e volto a olhar, vejo o que não quero, o que não queria, e aprecio silenciosamente a frustração do que gostaria de ser, acompanhada da dor de saber que jamais serei um ser diferente.
Num dia não sou eu...tento ocultar o meu eu e ser o meu oposto, o meu outro eu, que não existe e eu sei não existir, mas cobardemente sinto-o como um vento leve que me toca na cara, e agarro-o, e sorrio ao feio, ao que não gosto, ao que não quero, ao que me apetece gritar, expulsar das entranhas. Dura pouco...dura o tempo que eu quiser, que é nenhum.
Num dia sou uma desistente...quero desistir até do que não iniciei, quero dizer não quando ninguém quer ouvir um sim, quero fugir quando ninguém me quer agarrar, quero fechar-me quando não encontro uma porta para me trancar...as fechaduras estão estragadas, com ferrugem de anos e anos de vida aberta, assim como um livro que de tanto tempo ficar naquela página deixa de ser o mesmo, a marca fica, a marca ficará e para sempre...
Num dia inspecciono o passado para mudar o presente, mas esqueço-me que não tenho grande esperança no futuro e quando dou por mim luto a brincar, é uma luta "faz de conta", sei que não quero sequer ganhar...e fico paralisada como desde criança ficava.
Num dia olho ao espelho e vejo anos e anos passados, porque não é preciso sermos velhos, no sentido literal de palavra, para assim nos sentirmos. Tento perceber dentro do meu olhar o que poderia ter feito, ou fazer e até que ponto vou a tempo...é sempre tempo de morrer, mas para viver determinadas coisas há tempos.
Num dia vejo-me reflectida em montras, em espelhos de carros...e vejo uma pessoa feia, uma cara feia...uns olhos eternamente tristes, um sorriso difícil de ser algum dia um na sua plenitude. Sou feia e quero ser outra, e nas outras vejo beleza, mais do isso alegria de viver.
Tantos dias, tantos sentimentos num só dia...tantos estados de espírito...
Fica a certeza que temo ser injusta para com o meu Deus, de ser infantil para com os que me amam...de um dia olhar para o agora, e nem que esse dia seja amanhã e desejar ardentemente apagar com uma borracha todos os meus pensamentos, um a um, tudo o que invade a minha alma e que eu não falo, e que eu não grito...com medo.
Tenho medo.








































